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Entrevista: Gestora Bresser aposta no mercado interno com retomada e inflação temporária

Rodrigo Bresser fala em otimismo sobre a retomada econômica com o avanço da vacinação (Foto: Shutterstock)

A gestora de fundos de investimento Bresser Asset volta seu foco para oportunidades em ações de empresas ligadas ao mercado interno, de olho na retomada da economia brasileira no segundo semestre de 2021 com o avanço da vacinação e o relaxamento das medidas de isolamento social, diz Rodrigo Bresser, CEO e gestor da empresa, em entrevista ao Mercado News.

A Bresser Asset, que tem mais de R$ 750 milhões sob gestão, conta com uma filosofia de investimento baseada na análise fundamentalista das companhias, sempre levando em consideração o cenário macroeconômico. Além disso, busca correr menos riscos e atingir um patamar de volatilidade inferior à média do mercado. Para tanto, a gestora prioriza o investimento em papéis de empresas sólidas e evita ao máximo correr riscos ligados ao governo.

Mesmo com a preferência por empresas do mercado interno, Bresser destaca a importância da diversificação no sucesso do fundo de investimento em ações da casa, que acumula alta de 1.600% em 16 anos e é composto, atualmente, por 14 ativos.

Recentemente, o fundo se beneficiou de posições em empresas ligadas ao setor de commodities, cujos resultados foram impulsionados pela alta de preços e pelo câmbio depreciado. No médio prazo, porém, o gestor enxerga a carteira do fundo mais diversificada, com menor exposição aos setores de mineração e siderurgia e maior exposição ao mercado interno.

Leia a seguir os destaques da entrevista de Rodrigo Bresser ao Mercado News.

Seleção de ativos

Estamos sempre olhando a estratégia e a qualidade das empresas. Ao mesmo tempo, olhamos para a economia como um todo, para o que está acontecendo com a taxa de câmbio, com a taxa de juros, e o que podemos esperar em termos de comportamento econômico. Outra característica, em termos de escolha de ações, é uma preferência por empresas do mercado interno, embora tenhamos, mais recentemente, exposição bastante grande a empresas de commodities.

De modo geral, nós gostamos muito de alguns setores, como o setor financeiro, setor de varejo, que eu até colocaria em primeiro lugar, já tivemos posições também no setor de construção civil, enfim, economia doméstica como um todo, com foco maior nessas empresas.

Embora sejamos um fundo diversificado, buscamos não diversificar tanto assim, de modo geral. Recentemente, se você olhar nossa carteira, tinha um número um pouco maior de ações, mas nós reduzimos bastante esse número, estávamos com 20 ações e hoje estamos com 14. E esse é um número bom para nós, dá para ter uma média de 7% [de exposição] por papel. 

Investimentos na pandemia

Entramos em 2020 muito fortes. Aqui, acho que cometemos um equívoco. Em janeiro nós [o fundo] estávamos subindo cerca de 10%, enquanto a Bolsa não estava subindo nada, e então veio a pandemia.

Como eu falei, nós temos uma tendência mais voltada ao mercado interno, e tínhamos muitas posições no mercado interno nesse período, e acreditávamos que algumas dessas posições estavam indo bem, mas dependiam de um crescimento econômico grande para continuarem indo bem. Essas eram empresas de crescimento, que vinham negociando a múltiplos altos. Então nós decidimos reduzir algumas posições, e essa redução acabou sendo forte demais. Isso fez com que nós caíssemos na queda [da pandemia], mas o mercado como um todo caiu mais. Aqui em 31 de março [de 2020] nós não estávamos em uma posição tão ruim em relação ao mercado: estávamos caindo em torno de 25% a 27%, queda ainda menor que a do Ibovespa.

Mas nós mudamos muito a carteira, trocamos vários papéis, e de uma carteira voltada para o consumo acabamos misturando um pouco de commodities e nos voltamos para o consumo on-line. Isso foi bom em um primeiro momento, as commodities se beneficiaram da alta dos preços e da alta do dólar, e as empresas de e-commerce se beneficiaram no início, mas depois se mostraram muito voláteis, porque elas já tinham um valuation mais alto, elas cresceram muito, mas não entregaram resultados significativos em termos de aumento de rentabilidade. Embora se possa enxergar isso como investimento, foi ficando claro que a competição no setor é muito grande, e dificilmente as empresas teriam tanto retorno. Agora estamos vendo isso de forma mais clara, algumas empresas de e-commerce estão caindo na faixa de 20% neste ano, e isso por conta da competição forte: mesmo com o crescimento das receitas, os lucros não crescem da mesma forma. Então o mercado percebe que aquelas projeções de que essas empresas cresceriam e ganhariam rentabilidade não se concretizam, já que as empresas crescem, mas a rentabilidade não. E é por isso que elas estão passando por essas correções.

No início do ano nós ainda tínhamos posição [no e-commerce], mas ela estava concentrada no Mercado Livre. Antes disso nós tínhamos Magazine Luiza, chegamos a comprar Submarino também no ano passado, mas isso tudo atrapalhou. De modo geral, a respeito da nossa reação à crise, embora estivéssemos atentos, teria sido melhor para nós manter nossas posições, porque muitos papéis que nós vendemos voltaram subindo muito. 

Hoje nós temos uma carteira mais equilibrada, mas trocamos o e-commerce por empresas mais tradicionais que tenham também atuação no e-commerce, sendo a Renner uma dessas, que está indo bem neste mês, e aumentamos nossa exposição em empresas de siderurgia e mineração.

Provavelmente, no médio prazo, nossa carteira estará mais diversificada, com um pouco menos de concentração em siderurgia e mineração e ainda mais exposição ao mercado interno, mas ainda temos um pouco de siderurgia e mineração, um pouco de papel e celulose com Klabin, e devemos ficar entre esse equilíbrio. Enxergamos que as commodities devem continuar altas por bastante tempo, e que os múltiplos das empresas do setor estão baratos, então vale a pena manter as posições. O mercado de siderurgia e mineração em particular está muito forte, e foi prejudicado por ações do governo chinês, mas já vem se recuperando da grande queda que teve. O governo chinês impôs uma série de restrições à negociação nesse mercado por pessoas físicas, e isso fez com que ocorresse um ajuste rápido de posições. Ainda assim, de modo geral, vemos uma tendência de alta de preços do minério de ferro. 

Mercado interno, inflação e juros

Também vemos com bons olhos o mercado interno, que está performando bem. Temos o processo de vacinação, que irá continuar, e aos poucos, apesar de ainda estarmos com os hospitais lotados e sob o risco de uma nova onda, a tendência é que os casos diminuam no segundo semestre. E, assim, a economia tenta a retomada. As taxas de juros continuam baixas, e acreditamos que esse movimento do Banco Central [de alta da Selic] deve continuar, e não deve ser um movimento muito agressivo, apenas o mínimo para que a inflação convirja com a meta, que é mais ou menos a mesma linha que o Federal Reserve está adotando.

E esse movimento [de alta da inflação] é mais um choque temporário. Continuamos com um desemprego muito alto, e com um desalento muito grande, então não há razão para que exista uma pressão de salários capaz de criar uma espiral inflacionária. É um movimento temporário e que não tende a se difundir para o resto da economia por conta de toda essa ociosidade existente, portanto o Banco Central não precisa ser muito agressivo nessa alta dos juros.

Perspectiva para o mercado com as eleições de 2022

Também vemos, com a questão das eleições, que a fotografia é evidentemente favorável a um candidato de centro-esquerda, considerando que o Bolsonaro é um candidato de direita que teve bastante apoio do centro na sua eleição, já que agora o centro tenderia a outro candidato, no caso ao Lula, que ganharia a eleição neste momento. Olhando mais para a frente, [essa vitória] dependerá da capacidade dele de atrair o centro. Se ele conseguir atrair o centro e passar uma régua no passado que gerou uma rejeição muito grande a ele e ao PT, tem chances de se eleger.

Por outro lado, o tempo conta a favor do governo, ou seja, mais para a frente, com esse cenário de vacinação mais avançada e pandemia mais controlada, consequentemente trazendo uma recuperação econômica, aumentam as chances do Bolsonaro. Neste momento, as chances dele seriam muito baixas.

Mas o que importa para nós é que mesmo um candidato de esquerda não seria visto com maus olhos pelo mercado. As políticas [de um eventual governo de esquerda] não seriam muito diferentes, não há espaço para irresponsabilidade fiscal e também não há espaço para uma política de juros muito alta, então não teríamos muitas mudanças nesse sentido. Pode haver uma mudança no sentido de uma preferência por um tipo de tributação que distribua melhor a renda, mais concentrada sobre um determinado grupo, uma tributação maior sobre os mais ricos, ou seja, diferenças políticas.

Podemos notar diferenças também no que diz respeito às privatizações, já que o atual governo vem dando uma ênfase maior a essa agenda, embora não tenha concretizado muitas privatizações, e sim vendas de participações e operações do tipo. Tivemos o caso da BR Distribuidora, que podemos dizer que foi privatizada, por exemplo, além de várias posições no mercado financeiro que vêm sendo reduzidas, coisas que um eventual governo de esquerda provavelmente não faria.

O mercado pode reagir mal ao resultado das urnas?

Eu acredito que não é um risco tão presente porque qualquer investidor, antes de tomar uma decisão, pensa, a não ser que ele seja tomado no susto, como foi o caso da pandemia, que parou os mercados. Mas em um cenário no qual estamos falando de um candidato que já esteve no governo e passou 8 anos lá, não creio que [a eleição] cause algum susto.

O susto do Lula [na primeira eleição] tinha relação com a imagem do Lula que tinha passado 20 anos falando sobre calote de dívida e temas do tipo, vindo de um partido que acreditava-se que poderia ser caótico chegando ao poder. Mas logo em seguida as pessoas viram que a forma de atuação dele [Lula] teria que ser mais responsável. Então não há razão para uma queda muito grande nesse cenário.

Acho que o caso dos Estados Unidos é um exemplo: saiu o Trump e entrou o Biden com uma série de pequenas atitudes que foram sendo tomadas e que vem sendo muito bem avaliadas em diversos campos. Então acredito que o nível geral de pânico do mercado já foi superado. 

Natura

Acreditamos que a Natura possa fazer um bom turn around com a Avon, e assim continuar a ter ganhos aqui no Brasil. Enxergamos o negócio como atrativo e acreditamos que a empresa consiga trazer a rentabilidade que ela tem como Natura para os negócios da Avon. Obviamente, no Brasil esse processo é mais fácil, enquanto lá fora é mais difícil dizer.

JBS

Uma posição que nós temos e que nos trouxe um bom resultado também neste ano, e que é uma empresa que nós acreditamos ter condições de manter os resultados e superá-los no futuro, é a JBS, do setor de proteína. É uma empresa muito grande e que possui um time de gestão muito forte e uma estratégia de gestão muito forte, e que vem sendo negociada a 4 vezes a geração de caixa. Possivelmente o governo irá vender sua participação na empresa, e isso pode ser uma oportunidade para melhorar o valuation dela, já que a empresa vem sendo negociada a múltiplos muito baixos. E o mercado continua bom.

Nós vemos muita perspectiva de melhora, mas se houver acomodação dos preços de proteína, possivelmente não será muito grande. Pode ocorrer uma queda nos lucros em determinado momento, mas a empresa vem gerando muito caixa e investindo muito, e pode futuramente retomar a rentabilidade caso tenha uma queda. Como a empresa está estabelecida a nível internacional, com uma diversificação geográfica favorável, a queda dos resultados depende de uma queda no mercado global de proteína, já que uma queda apenas no mercado brasileiro não a afeta mais tanto assim. Acreditamos que ela possa apresentar R$ 29 bilhões de geração de caixa neste ano.

Bancos, fintechs e investimentos

Temos bastante exposição nesses novos players, que são os novos concorrentes dos bancos, e preferimos os bancos às credenciadoras, porque acreditamos que a posição estratégica deles é melhor. No caso das adquirentes, enxergamos um pouco mais de risco, mas os bancos novos estão bem posicionados no mercado, e podem continuar crescendo e ganhando mercado devido ao fato deles terem uma estrutura de custos mais leve, não terem agências. Isso dá uma vantagem a esses novos players, e a tecnologia deixou de ser uma barreira intransponível. 

Bancos como o Banco Inter e o BTG Pactual, corretoras como a XP Investimentos, mesmo a Stone, que é uma adquirente, assim como a PagSeguro, que depende mais da adquirência, aí temos um pouco de dúvida sobre como vai ficar a competição, já que temos ainda o Mercado Livre como um player forte nesse mercado de adquirência. Não são muitos os bancos digitais que têm capital na Bolsa, mas esses devem continuar crescendo.

Por outro lado, a recuperação econômica deve favorecer os bancos grandes, que têm uma capacidade de crédito muito grande, e que devem ceder mais crédito e ter a oportunidade de ganhar bastante dinheiro com isso. É pensando a médio prazo que a competição deve continuar trazendo uma redução de preços para os bancos e uma perda de market share. Estamos vendo isso começar a acontecer, ainda que de forma pequena, no mercado de cartões de crédito.

No mercado de adquirência já há uma forte competição. O órgão regulador, inclusive, está muito mais pró-competição, então a combinação dessas mudanças tecnológicas com essa postura do regulador está permitindo um crescimento muito grande dessa concorrência. Consequentemente, isso reduz um pouco a fatia de mercado dos grandes bancos. É difícil quantificar e isso e saber o que vai acontecer daqui a alguns anos, mas não me parece que seja uma cenário de crescimento de lucro dos grandes bancos, até porque a política de dividendos deles tem sido uma política de diminuição bastante grande em função das menores oportunidades de crescimento, então não é um setor no qual estamos apostando muito. Mas, novamente, existe essa oportunidade no mercado de crédito.

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